O que causa o autismo? O que a ciência sabe (e os mitos)
Genética, fatores ambientais e mitos: descubra o que a ciência sabe sobre as causas do autismo e por que vacinas e criação dos pais não são culpadas.
Neste artigo
"Foi alguma coisa que eu fiz na gravidez?" "Foi a vacina?" "Foi falta de limites?" Quase todo pai e toda mãe se faz essas perguntas, e carrega uma culpa que a ciência não sustenta. Vamos separar o que se sabe do que é mito.
A explicação mais aceita: genética + ambiente
Desde os anos 1990, estudos com gêmeos e famílias mostram que o autismo é altamente hereditário. Gêmeos idênticos têm muito mais chance de ambos serem autistas do que gêmeos não idênticos. Já foram identificadas centenas de genes associados ao TEA, cada um com um pequeno efeito, e algumas síndromes genéticas (como X frágil e esclerose tuberosa) aumentam a chance.
Isso não significa que o autismo seja "sempre herdado dos pais". Algumas variações genéticas surgem espontaneamente (mutações novas) na criança. Em famílias com um filho autista, a chance de outro filho também ter é maior do que na população geral (estudos apontam algo entre 10% e 20%), por isso vale o acompanhamento atento dos irmãos.
E o ambiente?
"Ambiente" aqui significa fatores biológicos antes e durante o nascimento, e não a forma como os pais educam. Os fatores associados a um risco um pouco maior incluem:
- Idade parental avançada na concepção (de ambos os pais);
- Prematuridade extrema e baixo peso ao nascer;
- Intervalo muito curto entre gestações;
- Algumas infecções e condições maternas, como diabetes mal controlado.
São associações estatísticas, não causas diretas. A maioria das crianças expostas a esses fatores não é autista, e muitas crianças autistas nasceram sem nenhum deles. Você não pode "ter evitado" o autismo, pois a maioria desses fatores não depende de escolhas.
Mito 1: vacinas causam autismo
Esse é o mito mais perigoso. Ele nasceu de um artigo de 1998, publicado por Andrew Wakefield, que sugeria ligação entre a vacina tríplice viral e o autismo. A investigação posterior mostrou que o estudo tinha dados manipulados e conflito de interesse; a revista o retirou em 2010 e o autor perdeu o registro médico no Reino Unido.
Desde então, estudos com milhões de crianças em vários países não encontraram relação entre vacinas e autismo, nem com o timerosal (conservante) ou com o número de vacinas. A OMS, o CDC e a Sociedade Brasileira de Pediatria são claros: vacinas são seguras e protegem contra doenças graves, como sarampo, que voltou a ameaçar crianças. Deixar de vacinar não previne autismo, só expõe a criança a doenças.
Mito 2: a culpa é dos pais
Já houve uma época em que "mães geladas" eram culpadas pelo autismo dos filhos. Isso foi desmentido há décadas. Falta de carinho, trabalho fora, separação, escolha de escola ou telas não causam autismo. Telas em excesso podem prejudicar o desenvolvimento de qualquer criança (leia Telas e autismo), mas não criam o TEA.
Mito 3: paracetamol, alimentação ou "toxinas"
Já circularam afirmações de que paracetamol na gravidez, glúten, leite, metais pesados ou "intoxicação" causam autismo. Os melhores estudos, incluindo grandes pesquisas que comparam irmãos (para eliminar fatores familiares), não encontraram relação causal. Gestantes devem seguir a orientação do pré-natal: febre alta e dor não tratadas também fazem mal. Dietas restritivas e "desintoxicações" sem indicação não curam e podem prejudicar a nutrição. Veja Tratamentos sem comprovação.
Então por que o autismo "aumentou"?
Os números cresceram sobretudo porque:
- os critérios de diagnóstico foram ampliados (o espectro inclui hoje quadros que antes passavam em branco);
- há mais informação, mais profissionais treinados e menos preconceito;
- mais adultos e mulheres estão sendo reconhecidos;
- pode haver pequeno aumento real ligado a fatores como idade parental, mas isso não explica o salto.
"Descobrir a causa" muda o tratamento?
Na maioria dos casos, não. A causa específica não define as terapias. Em alguns casos, o médico pode pedir exames genéticos, principalmente quando há deficiência intelectual, epilepsia ou características físicas específicas, para identificar uma síndrome e acompanhar outras condições de saúde. Mas o foco do dia a dia está nas necessidades da pessoa. Leia Terapias para autismo.
Autismo é hereditário?
Em grande parte sim: a genética tem peso importante. Mas nem sempre é herdado dos pais; algumas alterações surgem espontaneamente.
A vacina tríplice viral causa autismo?
Não. O estudo que sugeriu isso foi retirado por fraude e dezenas de pesquisas posteriores, com milhões de crianças, não encontraram qualquer relação.
Autismo pode ser causado por algo que a mãe fez na gravidez?
Em geral não. Existem fatores de risco associados, mas a maioria dos casos não tem causa ambiental identificável.
Meu filho é autista por causa das telas?
Não. Telas não causam autismo, embora o excesso possa atrasar a fala e o sono em qualquer criança.
Vale a pena fazer exame genético?
Depende. Fale com o neuropediatra ou geneticista: o exame costuma ser indicado em casos específicos e não é necessário para o diagnóstico.